Estréia: A Tempestade

26 maio

Espelho para mirar Shakespeare

Foi na comédia Do Jeito Que Você Gosta que William Shakespeare escreveu: “O mundo todo é um palco”. A famosa máxima, porém, serve de pista eficiente para desvendar o mecanismo de outra de suas criações: A Tempestade. Na obra, que o diretor Marcelo Lazzaratto encena a partir desta sexta-feira, 27, pode se encontrar uma espécie de súmula desse pensamento shakespeariano. Com todas as suas ações reiterando, incessantemente, a noção de que teatro e vida se confundem.

Para o espectador, a impressão é de que a peça inteira acontece dentro de outra peça. De que todos os personagens – e tudo o que eles dizem – despontam como alusões ao próprio processo criativo do escritor. “Essa é uma obra de despedida. Ele tem consciência da finitude, de que o seu tempo está acabando. É como se ele dissesse: ” Fiz a minha parte, agora passo o meu bastão para frente””, comenta Carlos Palma, ator que, nessa montagem, dá vida ao personagem Próspero.

Considerada a última peça do poeta inglês, A Tempestade vale-se de uma estrutura bastante simples, expondo pequenos núcleos nos quais as tramas seguem paralelas. No centro desse emaranhado, está a onipresente figura de Próspero. Aqui, além de conduzir o enredo, o protagonista insinua-se também como um alter ego do dramaturgo. Um olhar nada condescendente, que ele, no fim da vida e da carreira, lançava sobre si mesmo.

É o tema da vingança que inicialmente movimenta A Tempestade. Traído pelo irmão, Próspero perdeu o trono e o título de Duque de Milão. Para acertar as contas com o passado, ele provoca uma grande tempestade no mar e arrasta o navio de seus inimigos para uma ilha deserta. Lugar misterioso, onde o nobre vive há 12 anos na companhia da filha, Miranda (Thaila Ayala).

“Próspero é um grande personagem. Tem a mesma estatura de um Hamlet”, aponta o diretor, que já encenou outras obras do autor britânico, como Romeu e Julieta. O que chama atenção na concepção de A Tempestade, contudo, é o fato de este protagonista “reinar” praticamente sozinho, sem personagens que lhe façam sombra. Miranda não tem as nuances de uma Ofélia. Antônio, o irmão traiçoeiro, nem de longe possui a perfídia sofisticada de um Iago.

Todas as outras figuras que surgem em cena são secundárias. Merecem relevo apenas os seres mágicos Ariel e Calibã. Mas, mesmo eles, só podem ser vistos como desdobramentos da personalidade do protagonista. Ou do dramaturgo, se quisermos assumir o espelhamento biográfico como verdade.

O monstruoso Calibã é um símbolo do descomedimento, uma aberração a nos lembrar de todas as obras de Shakespeare em que predominam a morte e a violência desmesurada. Em oposição, irrompe o apolíneo Ariel. Ser que representa a retidão moral e a serenidade que o escritor desejou imprimir à literatura de sua última fase. “Durante todo o espetáculo, Próspero está dividido entre essas duas potências, entre a nobreza e a bufonaria”, lembra Lazzaratto.

O percurso que esse herói faz em direção ao perdão, desistindo da desforra e apiedando-se do sofrimento de seus detratores, não destoa da trajetória de seu próprio criador. Próspero triunfa sobre si mesmo quando abdica de seus poderes mágicos e de seu desejo de vingança. Shakespeare se agiganta quando concede à humanidade um voto de confiança. Ou, ao menos, o benefício da dúvida.

OS OUTROS PERSONAGENS…

Miranda
A inocente filha do protagonista Próspero, interpretada por Thaila Ayala, vive sozinha com ele em uma ilha. Apaixona-se por Ferdinando, o filho de um dos traidores de seu pai.

Ariel
Paulo Goulart Filho encarna o ser luminoso e cheio de poderes mágicos que é aliado de Próspero. Caberá a Ariel despertar no protagonista os sentimentos de compaixão e perdão.

Calibã
O ardiloso monstro, vivido por Francisco Brêtas, é filho da bruxa Sicorax. Antes da chegada de Próspero reinava sozinho na ilha e, no início, chegou a ser aliado do nobre.

A TEMPESTADE – Teatro Raul Cortez. Rua Dr. Plínio Barreto, 285, Bela Vista, tel. 3254-1632. 5ª e 6ª, 21h30; sáb., 21 h; dom., 20 h. R$ 40. Até 26/6.

“A Tempestade” é uma releitura da obra de William Shakespeare para o teatro e estreia na próxima sexta-feira (27) no Teatro Raul Cortez, em São Paulo. A peça tem direção de Marcelo Lazarotto

Fonte: Uol

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